02 / DOIS EXTREMOS


Falando de amor, de ódio e amor, e tudo entre os dois extremos, fizemos um plano pra nós dois. Pra agora, ou pra depois, não lembro.

Tudo em SP exige que se explique e se desculpe, que se venda, se vende ou se vista. Eu não consigo mais, me desculpe. Esse jeito só me afasta mais.

Sonho com um canto onde a gente possa ter um repouso, um tanto de promessa ao amanhecer. Uma sensação de que a vida não é uma luta, um dever. Onde a rua não seja só a mão pra quem corre ou quer correr. Quero abrir um livro na calçada e ler.

E quando no computador, no telefone e no computador, está tudo entre dois extremos, me sinto totalmente só. Todo mundo tem opinião, só eu não tenho!

Toda essa gente pensando que é esperta, que é da turma, é amiga e estará na lista… Eu não consigo mais, me desculpe. Essa vida não me atrai.

Sonho com um canto onde a gente possa ter um repouso, um tanto de promessa ao amanhecer. Uma sensação de que a vida não é uma luta, um dever. Onde a rua não seja só a mão pra quem corre ou quer correr. Quero abrir um livro na calçada e ler.

DIVIDE ET IMPERA

Julio César, Felipe II da Macedônia e Napoleão. Maquiavel, Francis Bacon e Emanuel Kant. Todos eles usaram ou apontaram a máxima do DIVIDIR PARA CONQUISTAR no campo político. Será que não somos capazes de perceber que estamos jogando este mesmo joguinho milenar aqui, nas mídias sociais, deixando este comportamento sangrar para as conversas de amigos e os jantares de família?

Esquerda. Direita. Petralha. Coxinha. Comunista. Reaça.

Eu acredito que somos muito mais capazes que isso. Eu acredito que as diferenças poderiam nos unir, e não nos separar.

Acho necessário e saudável que fiquemos indignados com os abusos e a falta de ética da nossa política. Aquela dos noticiários e principalmente aquelas quase invisíveis do dia a dia na esquina de casa.

Mas sou contra a arrogância. A prepotência. O julgamento fácil. Os argumentos viciados. A repetição burra dos argumentos viciados que você ouviu e nem interpretou.

Sou a favor de enxergar em si mesmo os mesmos defeitos e limitações que o outro tem. Sou a favor do aprendizado. Sou a favor do diálogo (e isso que tantos tem feito no Facebook não chamaria de diálogo, não).

Certo dia, de frente ao piano elétrico no Estúdio 12 Dólares, o desânimo me subjugou. A opressão dos Dois Extremos, a divisão entre as pessoas, tudo isso me deu um “blues”. E confesso que fiz esta música meio na base do “por que não fazer?”.

Gravei o piano e uma voz guia, depois a bateria. Acrescentei uma guitarra e se não me engano um órgão.

Querendo evitar ao máximo destacar o chororô desta letra, pedi socorro ao Fede Montero na hora de cantá-la. Essa música é mais desabafo que lamento. Fiquei feliz com o resultado. Fede me ajudou a encontrar na minha voz expressões que não sabia possuir. Ao contrário da monotonia da voz provisória que havia gravado sozinho, neste take final encontrei significado, verdade e colorido.

Vivo em São Paulo há mais tempo do que em Brasília, minha cidade natal. Amo esta cidade que me acolheu tão profundamente, embora desta maneira estranha, ilusoriamente fria. Como disse certa vez o amigo americano Victor Rice, em São Paulo todo mundo pode ser paulistano. E por amá-la, fico indignado quando encontro a desumanidade em suas ruas. Voltando de Buenos Aires, desejei para SP um pouco do romantismo bruto de sua hermana.

Abrir um livro na calçada e ler.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por @Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.

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