03 / CABE

Cabe en tus manos todo lo que tengo
como un destino en la borra de un café.
El universo en un párrafo inquieto
del gran Jorge Luis…

Cabe en tus ojos toda mi esperanza,
cabe en tu vientre la creación,
como en la célula cabe la historia
de la humanidad.

Cabe mi ser entero
dentro de esta canción.
Tómala sin reparos,
déjame estar por un rato en tu voz.

Todo el misterio en una sola palabra
y la existencia también.
Todo resume en este breve instante, ahora y aquí.

Cabe mi ser entero
dentro de esta canción.
Tómala sin reparos,
déjame estar por un rato en tu voz.

Abre el recuerdo que hay en tu cuerpo.
No habrá más que una sonrisa tímida.
La totalidad en cada fragmento,
En un momento de tu memoria mi vida.

Cabe en tus manos todo lo que tengo
como un destino en la borra de un café.
El universo es un presente inquieto
ahora y aquí.

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Cabe em tuas mãos tudo que eu tenho, como um destino na borra de um café. O universo em um parágrafo inquieto do grande Jorge Luis…

Cabe em teus olhos toda minha esperança. Cabe em teu ventre a criação, como na célula cabe a história da humanidade.

Cabe meu ser inteiro dentro desta canção. Pegue-a sem desconfiança, deixe-me estar por um momento em tua voz.

Todo o mistério em uma só palavra, e a existência também. Tudo se resume a este breve instante, agora e aqui.

Cabe meu ser inteiro dentro desta canção. Pegue-a sem desconfiança, deixe-me estar por um momento em tua voz.

Abra a recordação que existe em teu corpo. Não haverá mais que um sorriso tímido. A totalidade em cada fragmento, num momento da tua memória minha vida.

Cabe em tuas mãos tudo que eu tenho, como um destino na borra do café. O universo é um presente inquieto, agora e aqui.

 

Acabo de voltar de mais uma temporada de trabalho em Buenos Aires, onde compus a maioria das canções que passo a lançar mensalmente. A cada vez, minha amizade com o grande músico e produtor argentino Fede Montero fica mais clara e mais profunda. Desta vez, nada mais verdadeiro que mostrar a vocês a primeira composição em parceria com ele, feita há mais ou menos um ano atrás.

Estava de uns anos pra cá cada vez mais maravilhado com a maneira de se escrever canções na primeira metade do séc. XX. Cole Porter, Gershwin, Pixinguinha, Noel Rosa, Rodgers e Hammerstein. Os standards de jazz e as melodias brasileiras antes do Rock, antes da Bossa-Nova, antes de todo mundo saber de tudo. Há uma inteligência que passa sem esforço, nos dois sentidos, de quem fez a letra para quem a escuta. Há a evocação da beleza em cada frase melódica. Nenhum ouvinte é menos merecedor por acumular mais ou menos informação. Nada depende de referências prévias.

Brincando com alguns acordes menos complicados de jazz, cheguei numa melodia que achei bonita, que parecia evocar as saudades dessa era, mesmo com minhas limitações (no mínimo a limitação mais óbvia de viver 100 anos depois de tal período). Mostrei ao Fede, que se inspirou a escrever uma letra, onde procurou condensar nossos muitos papos em cafés nas calçadas de Belgrano.

Borges, genética, espiritualidade, nostalgia, devoção e paternidade. O talento de Montero é tamanho que nos versos estão todos esses assuntos, em palavras diretas, sem rebuscamentos desnecessários nem pretensões irreais. É uma letra claramente feita com honestidade e alma.

Ao receber a letra, talvez pela força gravitacional do idioma espanhol, passei a enxergar um bolero antigo no rádio de alguma sala de estar portenha, a família reunida em volta do aparelho… Na hora de gravar, assumi esse clima, e procurei me inspirar por alguns arranjos do maravilhoso Fina Estampa do Caetano, disco de 1994. Um violão de nailon e minha voz conduzem a apresentação da canção, que aos poucos é adornada com beats, sintetizadores, guitarras e batuques.

Fede Montero foi um cantor-mirim prodígio conhecido em seu país, e só mais tarde passou a desenvolver muito talento com instrumentos, produção e composição. Por isso, ao pensarmos juntos sua participação, escolhemos fazer com que sua voz entrasse do meio em diante, evocando a nostalgia de uma melodia de outro tempo. Eu, que estou agora em uma busca pela minha voz cantada, sempre me admiro ao ver um grande cantor desempenhar frente a um microfone. Ver Fede gravar foi uma verdadeira aula.

Finalmente, para a mixagem, achei pertinente que fosse feita na Argentina. E achei que alguém que tivesse o idioma espanhol como língua nativa entenderia melhor a emoção que quisemos passar. Então outro bom amigo, Mauro Cambarieri, se encarregou de mesclar os sons, com muita sensibilidade e clareza.

FICHA TÉCNICA:

Composta e produzida por Mauro Motoki e Fede Montero.
Gravado no Estúdio Doze Dólares (São Paulo) e Nagualito Estudios (Buenos Aires).
Engenharia de som por Luciano Tucunduva e Fede Montero.
Violão, guitarra, teclados e voz por Mauro Motoki.
Programação, percussão, teclado e voz por Fede Montero.
Mixado por Mauro Cambarieri no Estudio Del Campo (Buenos Aires).
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.

 

Em memória de Leia (25/04/2003), companheira impecável por 14 anos.

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