04 / BOM GOSTO

Quando alguém me diz que tem bom gosto, eu viro o rosto.
Penso logo que é doença, acudo, ajudo a se livrar.
Essa superioridade consentida é um conforto temporário.
Na verdade traz a mediocridade escondida.

E quem no mundo sabe o que é moderno?
Segundo caderno tem na capa a cara a tapa de quem só sabe imitar. Essa originalidade que é vendida com imposto alfandegário, com amizade e hereditariedade de mentira.

E quem disse que é pra entender pra se gostar?
Quem precisa aprender a enxergar?

BOM GOSTO

Esta música nasceu de uma brincadeira com a guitarra semi-acústica emprestada com que eu compunha no final de 2015. O som dela favorecia uma levada meio picaresca, meio cigana. Aquele som que a gente associa com vaudeville, com feiras e circos itinerantes do começo do séc. XX. Anões, mulher barbada, atrações bizarras.

Ao começar a pensar na letra, me pareceu que eu poderia falar de como me sinto em relação ao circo midiático atual.

Embora eu mesmo – como entusiasta e interessado pela história da música popular – possa ser acusado de um certo esnobismo quando falo do meu gosto pessoal por artistas e canções, estou no meu íntimo muito distante de quem usa conhecimento histórico ou contextual como arma para separar joio do trigo, para enfatizar uma superioridade automática de um artista cult ou consagrado em relação a outro popular.

Invariavelmente, em encontros de família ou amigos que não trabalham no meio musical, muitos vem me falar de como abominam o funk, o pagode ou o sertanejo, num esforço até louvável de confortar a mim, “músico de bom gosto”, já que o sucesso deles seria algo a se lamentar, fruto da ignorância brasileira. Onde está a boa música, que não tem espaço?

Olha, não sou mal educado. Sempre agradeço o impulso e a simpatia. Reconheço o gesto de apoio. Porém jamais pensei ou penso que o sucesso de alguém seja algo totalmente desmerecido. Não almejo de maneira nenhuma o espaço midiático dos colegas de outros estilos, seja rock, pop, mpb, sertanejo, pagode, funk, ou qualquer outro. E NUNCA me considerei melhor que qualquer um destes outros músicos como profissional. Em matéria de gosto pessoal, é claro que amo alguns artistas e tenho predileção por alguns estilos. Assim como detesto outros e não tenho grande interesse por outros tantos. Amo rock? Detesto sertanejo? Poderia cair no erro de dizer isso. Mas tem tanta, mas tanta banda de rock horrível, e tem um bom punhado de canções sertanejas tão boas!

Isto de bom ou mau gosto tem em todos os estilos.

Tive a sorte de conversar ontem com o grande Wilson Das Neves, e ele me ensinou muito ao dizer: “Tenho tudo o que quero, porque nunca quis nada.” Ouvir essa frase Zen de um cara que tocou com Pixinguinha, Cartola, Tom Jobim, Elis e Chico entre muitos e muitos outros foi elucidativo. Minha ambição não está onde os outros trilharam. Nunca esteve, embora às vezes a gente mesmo tenha essa impressão.

Finalmente, sempre me incomodou a “bola da vez”, este sistema de eleger de tempos em tempos quem é que está na crista da onda. Desde os cadernos de cultura dos jornais, até blogs de música e algoritmos de serviços de streaming, o consumo de cultura exige que se dite quem é que você deve comprar e admirar para que você mesmo seja considerado cool, pessoa de bom gosto, jovem e antenada.

Depois de tantos anos produzindo música do meu jeito aqui no meu canto, quantas vezes não me deparo com um hype gerado por amizade de artistas com jornalistas e produtores? Somos todos humanos. Se além de achar a obra de um artista boa, ainda me sinto querido e valorizado pela atenção que ele me dá, por que não escrever bem sobre ele? Por que não privilegiá-lo na escalação de um festival? É claro que ser artista sempre foi saber se relacionar por aí, em cortes das realezas, em vernissages, em festas, em premiações, no Facebook. Ser humano é saber ser influente em sua comunidade. No meio artístico isso é especialmente necessário. Até aí nada novo.

Junte-se a isso a necessidade mercadológica de fazer girar a roda do consumo, substituindo as novidades cada vez mais rapidamente, e caímos na armadilha disso que me incomoda. A pressão pra estarmos todos antenados o tempo todo. Ouvi um programa de rádio com o Bob Dylan apresentando e escolhendo as canções de acordo com temas, o Theme Time Radio Hour. Excelente. Em um dos episódios, ele lê a carta de um ouvinte reclamando que ele tocava muito mais velharias que novidades. Dylan responde: “existe muito mais música antiga do que nova. Sempre vai ser assim. Por uma questão estatística somente, estou fadado a escolher mais antiguidades que novidades.” Acrescento aqui apenas o lembrete que não é porque é velho que é bom (nem porque é novo que é bom), e estamos conversados.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos, samples e voz por Mauro Motoki.
Vozes adicionais por Fede Montero e Cinthia Mendes.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.

Deixe uma resposta