05 / PERGUNTE AO PÓ

Da escuridão
Dai-me luz
De mim levai tudo
Não sou capaz sozinho

Sempre soube desde muito cedo
Viver é um caminho lento e só
Por isso é ainda mais difícil
Dói ver a nossa vida virar pó
Dói ver os anos se transformarem nisso
E agora meu caminho deu um nó

Da escuridão
Dai-me luz
Enfim já sou grato
Não fui jamais sozinho

Sempre soube desde muito cedo
Viver é um caminho lindo
e só quem nega o que intui torna difícil
Erguer aquele véu de frente ao pó
Somente os anos pra ensinarem isso
Crescer depois de desfazer o nó

PERGUNTE AO PÓ

Trabalhando com música todos os dias nos últimos 10 anos, é fácil se perder de vez em quando na rotina, nos projetos, nos prazos do estúdio. O ofício de gravar, as técnicas, as soluções e os arranjos, tudo isso é encantador. Produzir as canções que saíram de outro artista, vislumbrar aquela alma e atender aquele cliente, tudo junto, é empolgante.

Mas como eu disse, é fácil se perder, e perder de vista o que considero os 2 aspectos mais importantes de ser artista. Primeiro, manter acesa a chama inquieta da busca artística íntima, a força do que você quer expressar para o mundo com sua voz única, com entrega e verdade. Segundo, e talvez ainda mais importante, manter-se ciente de que a música é uma ferramenta espiritual, cura, terapia e caminho para nossas almas. Neste último quesito, tenho a sorte de ter amigos profundamente envolvidos com suas missões, e dentre eles destaco o Gustavo Garde e o Daniel Padilha.

Dito isso, senti a necessidade de resgatar esta PERGUNTE AO PÓ, canção composta em 2008, e complementá-la com a segunda parte da letra, composta nove anos depois. Isto foi importante para mim porque esta canção é uma oração. E ver o que meu espírito dizia há nove anos me motivou a avaliar por onde estive nesta quase década. Aquela oração era de anseio, esta é de gratidão.

Quando praticava kung fu, meu querido mestre Amaral sempre nos ensinava sobre o bambu. Como esta planta resistente porém flexível nos dava o exemplo perfeito de conduta. Em especial sobre seu desenvolvimento, o mestre nos apontava que para crescer o bambu formava nós rígidos, em intervalos regulares. Os nós representam nossos momentos de crise, de inquietação, mas também de preparo e crescimento. Só passando por eles seremos capazes da espichada seguinte rumo à luz.

Finalmente, o título da música não tem um significado muito racional em sua ligação com o livro homônimo de John Fante, além de falar do pó que surge na letra, e talvez tocar em temas parecidos com a primeira parte. Mas lembro que o livro me marcou muito na mesma época em que a letra original foi escrita. Talvez eu devesse relê-lo agora, nove anos depois.

Mantive o mesmo arranjo da versão original de 2008, regravando vozes, violões e sintetizadores, mas mantendo minhas guitarras originais (tem uma com o pedal ooh-wah que adoro), e o solo final do meu admirável amigo guitarrista Fernando Coelho, um verdadeiro presente.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no sítio em 2008 e no Estúdio Doze Dólares em 2016 por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki, exceto guitarra solo por Fernando Coelho.
Mixado por Mauro Motoki. Remixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.

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