06 / CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ

Você
Que me mostra o rascunho
Do canto pelo medo do amanhã
E depois não crê
Você
Que duvida do que não vê
Não vê que a gente logo esquece

Eu vim do amanhã pra dizer
Que sim o amanhã pode acontecer
Confie no que não se prediz
Que linda manhã pra desadormecer

Só ter
Ao redor quem concorde
Com sua visão, seus ideais
Poderá não ser
Melhor
Que vencer a batalha
Muito antes que ela comece

Eu vim do amanhã pra dizer
Que sim o amanhã pode mesmo acontecer
Confie no que não se prediz
Que linda manhã pra desadormecer feliz

E agora  o que eu não soube eu sonhei
Eu sonhei
E o que contendi contra ganhei
Por idear, ideei

CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ

Não sei o quão ordinária é a sensação de que um texto, uma letra ou uma melodia tenha vindo de um lugar exterior ao seu autor – mas em conversas com amigos compositores, parece relativamente frequente. Tem uma música em meu disco BOM RETIRO (2011) chamada Um Ponto Singular que me assombra por este motivo. Ao ouvir o disco pronto, me lembrava vagamente de algumas passagens da gravação, do arranjo, mas absolutamente nada do momento da composição, tanto da letra quanto da melodia.

Seja qual for a explicação (psicanalítica, psicocognitiva, espiritual ou sobrenatural), o fato é que o processo de escrever e compor muitas vezes acessa áreas pouco conscientes de quem o faz. Há um caráter terapêutico e uma lição de humildade e desapego nisso.

Este CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ é uma representante dessa impressão de ausência de propriedade na autoria. Certo, lembro um pouco da sacada do meu quarto de hotel de Buenos Aires, lembro de assoviar a melodia pelas ruas daquela cidade, mas não me identifico como o dono desta letra e melodia, senão como seu mero redator ou viabilizador. Não por acaso, a letra trata de uma espécie de EU do futuro que vem garantir ao aflito EU do presente que o amanhã “pode mesmo acontecer”. Divirto-me com a ideia que esta letra pode ser verdade, e que quem a escreveu (escreverá?) sou eu mesmo lá na frente. Mas prefiro a interpretação do desapego autoral.

O que me lembro claramente, que seguramente resultou nas partes mais racionais do texto, é de minha iniciativa de lapidar a letra, já às vésperas de gravar a voz, substituindo palavras de uso comum por sinônimos pouco frequentes na linguagem coloquial. Fiz isso por diversão poética, e por querer expandir meu vocabulário. Talvez tenha sido influência de minha admiração pela língua espanhola que, na minha opinião, em seu uso coloquial, parece incentivar a exatidão na escolha das palavras em relação ao significado estreito delas. Há uma busca pela Verdade, com V maiúsculo, subentendida neste processo. Como dizem os budistas, “bem pensar, bem falar, bem agir”.

Então, para falar de acordar, usei “desadormecer”. Para brigar, “contender”. Para imaginar, “idear”.
Gostei do resultado, penso que deixa a imagem mais intrigante, embora não necessariamente mais exata.

A segunda parte da letra toca no assunto da tal bolha social de que tanto se falou nas mídias sociais, problema recorrente precisamente nelas. Rodear-se de quem só concorda e valida todo tipo de opinião que você emita, bloqueando quem discorda, é perigoso. É vencer (ilusoriamente) a “batalha” antes de permitir que ela sequer comece.

Sobre a parte da instrumentação, assim como em A Permanência da Mudança e Bom Gosto, gravei uma corda de cada vez da guitarra da intro e do final, e também dos acordes de baixo (!) dos refrães. Isso de gravar cada uma das 4 ou 6 cordas separadamente é exaustivo, mas acho que gera uma estranheza muito interessante no timbre de cada instrumento. Também, a exemplo de outras faixas lançadas este ano, toquei a bateria sem pratos, golpeando o bumbo com a mão direita e os outros tambores com a esquerda, em vez de usar o pé, como é mais comum. Isso deixa a parte rítmica forçosamente mais básica, mais enxuta.

A alusão a um EU do futuro obviamente não é nova. Filmes como De Volta Para o Futuro, 12 Macacos e Donnie Darko já exploraram repetidamente o tema. Desde H. G. Wells a viagem no tempo nos fascina. Desde Homero, Shakespeare e Dickens a visita de um ente fantasmagórico que vem nos alertar ou tranquilizar é relativamente comum. Talvez uma cena em especial tenha influenciado a composição desta letra. Trata-se deste trecho de La Danza de la Realidad do franco-chileno Alejandro Jodorowsky, que o amigo Edu Filomeno me mostrou um tempo atrás.

Outro paralelo que consigo traçar é com o conteúdo do livro El Arte de Ensoñar do americano Carlos Castañeda. E aqui a surpresa: estou lendo-o agora, nem sequer o terminei ainda, mais de um ano e meio depois do momento da composição, por tê-lo recebido de presente de outro bom amigo, Fede Montero. Ou seja, estarei me tornando o EU do futuro, que influenciado por este livro, visitará o EU de dezembro de 2015 com esta canção?

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Felipe Machado.

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