07 / CONTRAPLANO

Passa o tempo e você me pede pra lembrar
De uma cena, um lugar onde te vi feliz
Qual momento será que eu pude aparecer?
Eu que sem perceber, tantos papéis já fiz

Improviso um quase riso
Um nervosismo a mais
Um passo para trás
Tantos anos em contraplano pra você brilhar
Sombra e reação
A atuação é sua

Desce o pano e a memória vem me visitar
Nos bastidores está a cicatriz
O meu lado da história ninguém precisa ler
Quando for pra valer, é você quem diz

Improviso um quase riso
Um nervosismo a mais
Um passo para trás
Tantos anos em contraplano pra você brilhar
Sombra e reação
A atuação é sua

Não sei sorrir como você quer
Não sei chorar quando bem entender
Por mais bonito que seja o clichê

CONTRAPLANO

Partes desta música já devem ter sido usadas experimentalmente no Ludov em alguma ocasião. Lembro de usar um trecho desta melodia no processo de composição da canção Rubi, do Disco Paralelo, em 2006. Mas depois descartei o trecho e a letra na época.

A letra atual começou como um questionamento e uma auto-provocação, para incentivar um protagonismo maior em minha carreira artística, para que tomasse as rédeas daquilo que sentisse que só eu mesmo poderia dizer. Como se fosse a justificativa para mim mesmo do porquê de gravar com minha voz estas canções que lanço este ano, em vez de colocá-las à disposição de outros intérpretes.

Então explorei essa imagem do ator coadjuvante, que num palco trabalha para realçar o papel do protagonista. Mas que nem sempre sabe reagir conforme o esperado.

Desde então, tenho enxergado mais nuances na interpretação desta canção. Essa mesma dinâmica do protagonismo/apoio serve para diversas facetas de nossa vida cotidiana. Pode ser que em casa, tenhamos que equilibrar o que consideramos nossas prioridades individuais com aquelas que são demandas dos outros membros da família. Quando é o momento de assumir o controle de sua própria história, e quando é o momento de ajudar os outros a completarem seus roteiros? Na vida profissional, é comum que tenhamos que doar nosso tempo e nossos melhores esforços para que o projeto de um sócio ou colega tenha êxito, e isso nem sempre estará alinhado com nossas próprias metas ou expectativas.

Para a gravação desta canção, quis chamar amigos para uma jam livre, e reuni o Habacuque Lima do Ludov e os argentinos Fede Montero e Cinthia Mendes no estúdio Trampolim em SP, onde nos revezamos entre um piano elétrico Rhodes, uma guitarra, baixo e percussões. Cada tomada alguém assumia um instrumento diferente. Resolvi abordar este arranjo desta maneira porque não sentia que pudesse iniciá-lo de algum ponto racional, como é comum quando se começa a pensar uma música sozinho. Com este método mais livre, buscava o intuitivo, o que fosse fluido para a composição. Foi ótimo e divertido.

Mas num segundo momento, semanas depois, achei que embora tivesse conseguido essa atmosfera de espontaneidade, faltava personalidade neste arranjo, talvez uma paleta de cores mais contrastantes. Convoquei o Luciano Tucunduva e juntos pensamos em fazer algo na linha do disco Yankee Hotel Foxtrot do Wilco. Usar os elementos que a gente já tinha de uma maneira menos usual, fazendo-os entrar e sair no meio da música, dando uma impressão bem caótica. Luciano acrescentou uma bateria bem desestruturada, quase sinfônica.

E a partir daí abri mão de qualquer controle, e esperei que o próprio Luciano mixasse a música como bem entendesse. Foi necessário desprendimento e confiança, e acho que a música ganhou dimensões inesperadas desta forma.

Para a arte gráfica, quis brincar com a ideia de que um protagonista relutante não olharia para a câmera, e sim quase que daria as costas a ela (o tal contraplano), convidando o observador a ver o que ele estava vendo, a reagir ao que ele estava reagindo. Não é uma ideia original, e um exemplo notório deste recurso é a capa do Cinema Transcendental do Caetano. Também retomei um hábito que adoro desde pequeno, que é o desenho de observação. Adoro desenhar os cantinhos das cidades, prédios, avenidas, estabelecimentos. Mais recentemente vi no Instagram uma comunidade de desenhistas que chamam isso de Urban Sketching. Achei que combinava com essa busca por compartilhar uma visão particular, única, de um cenário comum, coletivo. E assim também se estabelece uma ponte entre este apanhado de canções e meu primeiro disco solo, Bom Retiro (2011), cuja capa está repleta de desenhos desse tipo.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Gravado por Luciano Tucunduva no Estúdio Trampolim e Estúdio Doze Dólares.
Baixo, piano elétrico, guitarra e percussão por Mauro Motoki, Habacuque Lima, Fede Montero e Cinthia Mendes.
Teclados adicionais por Mauro Motoki.
Bateria por Luciano Tucunduva.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Fotos por Michelle Ballon.
Desenhos por Mauro Motoki.
Arte gráfica por Edu Filomeno.

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