09 / A VIDA SECRETA DAS PLANTAS

 

Da unidade plantada ou caída
uma semente escondida germina no chão.
Unhas na terra buscando energia,
devolve ao solo a vida,
a raiz da questão.

E ao vento lança a ponta de esperança
brotando numa dança em rotação.
Propõe aos outros seres a mudança,
sorvendo o sol nessa levitação.

E eu, que em minha pequenez,
como objeto as tratava
pelos cantos,
pelas frestas,
vejo enfim pela primeira vez
a verdade clara
pelas flores
e florestas.

Pela aparente estática opera
o milagre do ar que é luz em transformação.
Ver de soslaio seu galho após galho
que em espiral se espalham
é a grande lição.

Na forma de sua copa vejo a fruta.
É muito desafio à compreensão!
Onde enxergava apenas luta
eu hoje vejo colaboração.

E eu, que em minha pequenez,
como objeto as tratava
pelos cantos,
pelas frestas,
vejo enfim pela primeira vez
a verdade clara:
vejo as plantas como mestras.

 

O quintal da casa do meu vô materno era pequeno, mas parecia uma florestinha. Minha mãe sempre “falou” com as plantas. Cresci entre um abacateiro, uma jaboticabeira e um flamboyant em Brasília. No entanto, apesar de meu imenso amor pelos animais, vinha virando as costas para o mundo botânico, tratando as plantas como objetos. Tudo bem, entendia, pelas aulas de biologia, que os vegetais eram seres vivos. Mas entender está bem longe de sentir.

Por influência de minha mulher Michelle, que sempre pára para apreciar árvores bonitas em nossas andanças; e por amigos como o Fabio Pinczowski, o menino do dedo verde; o Edu Filomeno, que há tempos abandonou o concreto em prol de uma vida mais cercada de natureza; e o Fede Montero, que mantém um diálogo sempre aberto com a vida vegetal; de uns tempos pra cá eu vinha filosofando sobre o tempo das árvores (será que nos vêem como formiguinhas apressadas?), sobre como se comunicam, sobre suas alegrias e sofrimentos.

Finalmente, tudo isso culminou numa ida à Fazenda Lila, um lugar por si só mágico, onde fizemos um curso de agrofloresta com o Alan Berenstein. Além de botar a mão na terra e aprender essas técnicas revolucionárias (e ancestrais) de cultivo, os conceitos básicos que permeiam a agrofloresta e a biodinâmica abriram um milhão de portas no meu intelecto, e derrubaram mais outro milhão de muros no meu coraçãozinho urbano.

Nesta letra está quase tudo que consegui absorver até agora: o crescimento espiral das plantas, as raízes buscando nutrição e melhorando o solo, a substituição da noção de luta por uma de colaboração entre plantas e animais, o amor incondicional.

Para completar, Michelle me presenteou com A Vida Secreta das Plantas, livro de 1973 de Peter Tompkins e Christopher Bird, que gerou o documentário homônimo de 1979, com a famosa trilha sonora do Stevie Wonder (o lindo STEVIE WONDER’S JOURNEY THROUGH THE SECRET LIFE OF PLANTS).

Minha mente e coração seguem se abrindo para a verdade: o planeta é das plantas, nós habitamos aqui porque elas em sua generosidade nos permitiram. Aprendamos com elas.

FICHA TÉCNICA:

Gravado e produzido por Mauro Motoki na Colméia.
Piano e voz por Mauro Motoki.
Ukulele e voz por Michelle Ballon.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco Master.
Retrato fotográfico por Michelle Ballon.
Montagem gráfica por Mauro Motoki.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

*Para uma breve introdução à agrofloresta, e um de seus mais notórios praticantes, Ernst Gotsch:

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