11 / A ESPIRAL DAS HORAS

 

A ESPIRAL DAS HORAS

O que ficou pra trás
pela longa espiral das horas
servirá de lição
mas não se repetirá
outra vez
nessa nossa vida.

Tenha coragem, amor.
Vejo apenas conquistas pra nós.
Um barco em Amsterdã
montanhas no Canadá
no Japão
o teu riso ecoa.

Se são necessários dois
como asas para voar
só vou questionar depois
que a gente decolar.
Tudo é possível então
não me deixam mentir
as linhas em nossas mãos
parecem sorrir.

Não quero ser doutor
de lugares que ainda não vi
Quero experimentar
cheiro, sabor e cor
Um aprendiz com você
pela espiral das horas

Se são necessários dois
como asas para voar
só vou questionar depois
que a gente decolar.
Tudo é possível então
não me deixam mentir
as linhas em nossas mãos
parecem sorrir.
Tenha coragem, amor
O que ficou pra trás
Servirá de lição
na espiral das horas.

Nesse ano que está terminando, me reaproximei bastante do piano, instrumento com o qual nutro uma relação muito profunda desde a infância. Há tempos não chegava em casa após um dia no estúdio e me inspirava a abrir a tampa do velho piano e tocar algo.

A música deste mês saiu em um devaneio espontâneo, improvisando nas teclas brancas e pretas do instrumento algumas melodias e harmonias. Fiz isso inspirado pelos ensinamentos do livro Ser Criativo, do Stephen Nachmanovitch, que recomendo para qualquer um que deseja manter um espírito criativo perante a vida, seja exercendo alguma arte ou não. Todos nascemos com alma de artista, é o que acredito. Nesta obra (que meu grande amigo Fede Montero me presenteou numa visita ao Brasil) o autor fala de Lila, a brincadeira cósmica, esse impulso que nos dá de observar uma folha ao vento, as formas das nuvens, o barulho de um rio. Muitas vezes nos desconectamos desta essência, envoltos em ansiedades e frustrações do dia-a-dia. Quando sentei ao piano naquele dia, não esperava compor, mas foi aí que essa canção veio fácil, límpida, como uma gota de chuva num dia muito abafado.

A espiral que menciono no título e na letra vem de uma reflexão sobre como o tempo passa para nós, aqui de dentro deste planeta em rotação sobre seu próprio eixo, e em translação ao redor do sol. Tem um vídeo na internet que ilustra bem esse bonito movimento, embora eu tenha aprendido em leituras posteriores que contém alguns conceitos errôneos do ponto de vista estritamente científico. Mas serve para ilustrar essa tal espiral das horas.

 

A letra fala do efêmero, onde nada se repete, mas tudo serve de lição. E busca um otimismo ao assegurar que tudo é possível, que o destino – representado pelas linhas nas mãos – traz um infinito de possibilidades. Menciono viagens incríveis que tive o privilégio de realizar com minha esposa, mas que também podem servir de inspirações para quem ainda tem o mundo inteiro a conhecer. Amsterdã e seus canais, algum canto selvagem no Canadá, ou ainda o Japão em que uma risada ecoa. Na terceira estrofe, me inspirei num texto do grande explorador brasileiro Amyr Klink, de quem sou fã. Li todos os seus livros. Ele diz que nossa sociedade está cheia de doutores do teórico, que se apoiam em verdades que nunca viram ao vivo, nunca SENTIRAM de maneira presencial, e ressalta a importância de mantermos um espírito de aprendiz. Nisto, ele se equipara a ensinamentos hindus, que reforçam a necessidade de EXPERIMENTARMOS o divino, a sensação de comunhão com o cosmos, por nós mesmos, e não recebermos passivamente dogmas e verdades absolutas passadas por autoridades religiosas ou líderes espirituais. Na minha opinião, os grandes mestres contribuem da melhor maneira à humanidade quando cada um pode experimentar em seu íntimo a paz que dá essa ligação com a natureza, com os outros seres, com um propósito maior.

Compus, fiz a letra e gravei tudo em uma só noite, na sala de casa, que chamo de Colméia. Luciano Tucunduva mais uma vez contribuiu muito com a sonoridade final da faixa, comprando a ideia do registro do momento, por mais imperfeito que possa ter sido. Como uma velha fotografia de Robert Capa no meio do Dia D na Segunda Guerra, penso que os aspectos técnicos podem ser secundários frente ao registro emocional de um momento específico, como foi aquela noite lá em casa quando essa canção me presenteou com a oportunidade de gravá-la.

Um ótimo 2018 pra todos nós, com muita paz de espírito e mais amor entre todos os seres. Desta vida levaremos o imaterial, não as coisas que acumulamos. “O que ficou pra trás servirá de lição na espiral das horas”.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido e gravado por Mauro Motoki na Colméia.
Piano e voz por Mauro.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Fotos por Michelle Ballon.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

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