01 / A PERMANÊNCIA DA MUDANÇA

Talvez ser poderoso seja ser frágil
e permanecer seja mudar
ao sabor de cada presságio
a cada presente
que vivendo a vida a gente vê que a vida dá

Talvez não reagir peça coragem
Aceitar também é responder
Abraçar o que se sente
cada bobagem
que vivendo a vida a gente vê que é viver

10 de janeiro de 2016. Acordei cedo para mais um dia de gravações no estúdio. Ainda tomando café em casa com minha mulher, li no celular a notícia de que David Bowie havia morrido. Não pode ser, pensei. Seu disco novo acabara de ser lançado, incitando nos últimos dias esperanças de mais uma turnê. Como era bom ter um artista de sua estatura ainda produzindo e lançando coisas novas! Ao longo das próximas semanas, o mundo inteiro teria que aceitar sua partida, e se maravilhar com seu legado e com o comprometimento espantoso que demonstrou até o fim, transformando sua própria morte em um último disco pungente e complexo, pondo sua obra acima até mesmo de sua própria existência pessoal.

Mas ali, naquela manhã, não sabia de nada disso, e me senti órfão e vazio. Pensei em abandonar as gravações daquela semana. Nada que eu pudesse produzir em termos de música me parecia relevante naquela circunstância. Uma tristeza ampla se estendeu como um lençol por cima de qualquer possibilidade para aquele dia. Tentei ouvir alguma música, dele ou de outros, mas o silêncio parecia sempre o mais adequado. Segui para o estúdio, um pouco como hábito, um pouco por achar que a caminhada em si me ajudaria a absorver melhor a notícia.

Entrando no estúdio, uma atmosfera serena me surpreendeu. A luz entrava pelas frestas lateralmente, aquecendo aos poucos os cantinhos ainda habitados pela madrugada. Liguei os equipamentos um pouco mais motivado a seguir com minha rotina de produção, continuando a gravar as canções que tinha até então, mas estanquei.

Sentei no sofá com um violão e esta canção veio inteira, do primeiro ao último acorde, com melodia e até um bom pedaço da letra, que eu terminaria até o fim daquele dia. Finalmente levantei a cabeça, e ali estava David Bowie me encarando com os olhos sobrenaturais do poster do disco Heathen que temos pendurado na parede do Estúdio 12 Dólares. Tinha esquecido que ele estava ali, e aquilo levantou o véu de lamentação sob que eu me encontrava. Nem uma doença terminal fez aquele grande ídolo conter o impulso criativo que está em todos nós. Por que diabos sua morte deveria fazer qualquer coisa diferente do que nos inspirar a sermos artistas e pessoas melhores? Obrigado, David Robert Jones. Naquele momento, fiz minha oração à pessoa que tinha partido, e ao artista que permaneceria.

Vinha me divertindo com a ideia de gravar guitarra ou violão de uma maneira diferente: uma corda por vez, mesmo se estivesse tocando acordes com as seis cordas simultaneamente. Nesta música, pus isso em prática. Mentalmente desgastante e recompensador ao mesmo tempo. O resultado foi um som de violão denso, e um pouco alienígena (piscadela, Ziggy!). Usei e abusei do sintetizador construído especialmente para mim pelo amigo Arthur Joly. Finalmente, na hora de gravar bateria, resolvi tocar o bumbo também com as mãos, já que decidi que não usaria pratos para conduzir a levada.

Todas as vozes definitivas gravei meses mais tarde, com a chegada do Fede Montero de Buenos Aires. Músico, produtor e cantor prolífico, ele como coach vocal me ajudou imensamente a encontrar uma nova voz. Não sou cantor experiente, tendo me aventurado algumas vezes à frente no Ludov e no meu disco anterior, Bom Retiro. Queria encontrar minha voz cantada, queria que ela se aproximasse mais da minha voz falada, e queria também ter um pouco mais de recursos técnicos para cantar a emoção que achasse que a música pedia. Ainda não peguei aquela “veia”, sinto que ainda há muito a desenvolver, mas nessas músicas, a começar por esta, já noto uma evolução.

 

Ficha técnica:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva, e no Trampolim Estúdio por Habacuque Lima.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.

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