12 / AMOR ESPETACULAR

 

AMOR ESPETACULAR

Você não vai levar de mim
o que eu acredito
Contra os meus princípios teu fim
é mais um conflito

Se não vou te entender
porque sou mais um garoto
Frente aos teus direitos meu dever
é meio canhoto

Antes de sermos raças e cores
privilégios e favores
nós temos valores onde o amor está
Vem, vamos ser mais que espectadores
Então colheremos flores
e um amor espetacular

Quem nunca sonhou
com a visão
de um mundo mais justo
mas não há nada que venha à nossa mão
sem ter algum custo

Completo com esta canção este projeto que me tem sido tão revigorante, e que tanto me ajudou a aprender mais sobre mim mesmo, sobre a voz que deve ter a minha alma.

Quis fazer uma letra que soasse esperançosa sem falar de esperança, que fosse política sem falar de política, e que fosse de amor falando de amor.

Fiz a letra de uma vez só, há alguns dias, e apenas inverti a ordem dos versos para chegar ao resultado final. A música, fiz hoje de manhã. A melodia, só terminei na hora de gravar. Mixei agora na última hora do dia 25 de janeiro de 2018. Ela é o cúmulo desse meu desafio de lançar uma por mês durante todo 2017 e neste primeiro mês deste ano. No começo eu já tinha algumas canções feitas. À medida que o ano foi passando, achei muito interessante que a letra principalmente fosse a mais atual possível em relação ao meu estado de espírito de cada mês.

Então, excepcionalmente, esta última música do projeto não contou com a colaboração daqueles cujas presenças foram mais do essenciais durante os últimos 12 meses. Deixo aqui meu profundo agradecimento a:

Luciano Tucunduva, que abraçou de coração minhas propostas sonoras e meu modo de trabalhar pouco usual.

Arthur Joly, grande amigo genial que admiro tanto e que adicionou o verniz das masterizações com profundo bom gosto.

Fede Montero, grande irmão de nosso país irmão, produtor e coach vocal argentino que me ajuda constantemente na minha busca pessoal e espiritual através da música.

Edu Filomeno, cuja generosidade transcende qualquer relação usual de amizade, sem o qual a cara gráfica desse projeto 40 não seria tão livre e coerente ao mesmo tempo.

Michelle Ballon, meu amor de muitas vidas e pra vida toda, companheira e fotógrafa da minha alma.

Deixo também meu agradecimento profundo a Lenis Rino, Habacuque Lima, Fabio Pinczowski, Felipe Machado, Cinthia Mendes e todos os que me apoiaram para a realização deste projeto.

Mês que vem já disponibilizarei todas as canções de maneira conjunta pelas plataformas digitais mais conhecidas.

OBRIGADO A TODOS QUE DERAM UMA CHANCE PARA ESSAS MÚSICAS COM SEUS OUVIDOS E CORAÇÕES.

FICHA TÉCNICA:

Produzido, gravado e mixado por Mauro Motoki na Colméia.
Todos os instrumentos por Mauro.
Fotos por Michelle Ballon.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

11 / A ESPIRAL DAS HORAS

 

A ESPIRAL DAS HORAS

O que ficou pra trás
pela longa espiral das horas
servirá de lição
mas não se repetirá
outra vez
nessa nossa vida.

Tenha coragem, amor.
Vejo apenas conquistas pra nós.
Um barco em Amsterdã
montanhas no Canadá
no Japão
o teu riso ecoa.

Se são necessários dois
como asas para voar
só vou questionar depois
que a gente decolar.
Tudo é possível então
não me deixam mentir
as linhas em nossas mãos
parecem sorrir.

Não quero ser doutor
de lugares que ainda não vi
Quero experimentar
cheiro, sabor e cor
Um aprendiz com você
pela espiral das horas

Se são necessários dois
como asas para voar
só vou questionar depois
que a gente decolar.
Tudo é possível então
não me deixam mentir
as linhas em nossas mãos
parecem sorrir.
Tenha coragem, amor
O que ficou pra trás
Servirá de lição
na espiral das horas.

Nesse ano que está terminando, me reaproximei bastante do piano, instrumento com o qual nutro uma relação muito profunda desde a infância. Há tempos não chegava em casa após um dia no estúdio e me inspirava a abrir a tampa do velho piano e tocar algo.

A música deste mês saiu em um devaneio espontâneo, improvisando nas teclas brancas e pretas do instrumento algumas melodias e harmonias. Fiz isso inspirado pelos ensinamentos do livro Ser Criativo, do Stephen Nachmanovitch, que recomendo para qualquer um que deseja manter um espírito criativo perante a vida, seja exercendo alguma arte ou não. Todos nascemos com alma de artista, é o que acredito. Nesta obra (que meu grande amigo Fede Montero me presenteou numa visita ao Brasil) o autor fala de Lila, a brincadeira cósmica, esse impulso que nos dá de observar uma folha ao vento, as formas das nuvens, o barulho de um rio. Muitas vezes nos desconectamos desta essência, envoltos em ansiedades e frustrações do dia-a-dia. Quando sentei ao piano naquele dia, não esperava compor, mas foi aí que essa canção veio fácil, límpida, como uma gota de chuva num dia muito abafado.

A espiral que menciono no título e na letra vem de uma reflexão sobre como o tempo passa para nós, aqui de dentro deste planeta em rotação sobre seu próprio eixo, e em translação ao redor do sol. Tem um vídeo na internet que ilustra bem esse bonito movimento, embora eu tenha aprendido em leituras posteriores que contém alguns conceitos errôneos do ponto de vista estritamente científico. Mas serve para ilustrar essa tal espiral das horas.

 

A letra fala do efêmero, onde nada se repete, mas tudo serve de lição. E busca um otimismo ao assegurar que tudo é possível, que o destino – representado pelas linhas nas mãos – traz um infinito de possibilidades. Menciono viagens incríveis que tive o privilégio de realizar com minha esposa, mas que também podem servir de inspirações para quem ainda tem o mundo inteiro a conhecer. Amsterdã e seus canais, algum canto selvagem no Canadá, ou ainda o Japão em que uma risada ecoa. Na terceira estrofe, me inspirei num texto do grande explorador brasileiro Amyr Klink, de quem sou fã. Li todos os seus livros. Ele diz que nossa sociedade está cheia de doutores do teórico, que se apoiam em verdades que nunca viram ao vivo, nunca SENTIRAM de maneira presencial, e ressalta a importância de mantermos um espírito de aprendiz. Nisto, ele se equipara a ensinamentos hindus, que reforçam a necessidade de EXPERIMENTARMOS o divino, a sensação de comunhão com o cosmos, por nós mesmos, e não recebermos passivamente dogmas e verdades absolutas passadas por autoridades religiosas ou líderes espirituais. Na minha opinião, os grandes mestres contribuem da melhor maneira à humanidade quando cada um pode experimentar em seu íntimo a paz que dá essa ligação com a natureza, com os outros seres, com um propósito maior.

Compus, fiz a letra e gravei tudo em uma só noite, na sala de casa, que chamo de Colméia. Luciano Tucunduva mais uma vez contribuiu muito com a sonoridade final da faixa, comprando a ideia do registro do momento, por mais imperfeito que possa ter sido. Como uma velha fotografia de Robert Capa no meio do Dia D na Segunda Guerra, penso que os aspectos técnicos podem ser secundários frente ao registro emocional de um momento específico, como foi aquela noite lá em casa quando essa canção me presenteou com a oportunidade de gravá-la.

Um ótimo 2018 pra todos nós, com muita paz de espírito e mais amor entre todos os seres. Desta vida levaremos o imaterial, não as coisas que acumulamos. “O que ficou pra trás servirá de lição na espiral das horas”.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido e gravado por Mauro Motoki na Colméia.
Piano e voz por Mauro.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Fotos por Michelle Ballon.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

10 / O MELHOR DO SER HUMANO

Solavanco pela estrada
Onde ninguém enxerga nada
eu vejo um bom futuro
por mais duro que seja esse país

Sempre fui de dar risada
mesmo quando a gurizada
pegava no meu pé
Sempre tive fé que o bom é ser feliz

Me encontre praquele café
falemos de nós, de sonhos e planos
Eu sei, tudo tá meio ruim
Tanta gente que vem com cada papo estranho…
Mas de algum jeito vai
quando espreme sai
o melhor do ser humano

Vem comigo pra padoca
Põe de lado essa engenhoca
drone, smartphone, clone, adicione
estacione até descongestionar

Mídias anti-sociais
Todo mundo só quer mais
eu quero menos tudo
meu escudo é um desejo de paz

Me encontre praquele café
falemos de nós, de sonhos e planos
Eu sei, tudo tá meio ruim
Tanta gente que vem com cada papo estranho…
Mas de algum jeito vai
quando espreme sai
o melhor do ser humano

Sou irremediavelmente otimista. Acredito na bondade como sinal de inteligência.

Acredito que todo tipo de desavença, das menores às maiores, são fruto das inseguranças que adquirimos ao longo da vida, são consequência da mera desconexão nossa com uma fonte primordial de energia. Que sim, nos machucamos muito nessa existência, por incontáveis gerações, mas somente porque esquecemos quem somos, e ficamos tentando resgatar essa energia primordial uns dos outros, em vez de ir direto à fonte. Em época de gadgets eletrônicos, é como se tentássemos carregar nossos smartfones somente através das baterias de outros aparelhos, quando poderíamos ligar direto na tomada.

Fiz essa música buscando simplicidade harmônica e o arranjo como se fosse um quebra-cabeças rítmico de guitarras.

Para esta letra, contei com a privilegiada contribuição da minha amada Michelle. Como é um discurso claro, que creio traduzir concisamente minha ideologia de vida, nada melhor que alguém que me conhece tão intimamente para me ajudar a por no papel essas ideias.

FICHA TÉCNICA:

Composição de Mauro Motoki e Michelle Ballon.
Produzido e gravado por Mauro Motoki na Colméia.
Todos os instrumentos por Mauro.
Mixagem por Luciano Tucunduva.
Masterização  por Arthur Joly na Reco-Master.
Retrato por Michelle Ballon.
Montagem gráfica por Mauro Motoki.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

EM MEMÓRIA DE PATRICK (16/01/2005), EXEMPLO IMPECÁVEL DE BONDADE.

09 / A VIDA SECRETA DAS PLANTAS

 

Da unidade plantada ou caída
uma semente escondida germina no chão.
Unhas na terra buscando energia,
devolve ao solo a vida,
a raiz da questão.

E ao vento lança a ponta de esperança
brotando numa dança em rotação.
Propõe aos outros seres a mudança,
sorvendo o sol nessa levitação.

E eu, que em minha pequenez,
como objeto as tratava
pelos cantos,
pelas frestas,
vejo enfim pela primeira vez
a verdade clara
pelas flores
e florestas.

Pela aparente estática opera
o milagre do ar que é luz em transformação.
Ver de soslaio seu galho após galho
que em espiral se espalham
é a grande lição.

Na forma de sua copa vejo a fruta.
É muito desafio à compreensão!
Onde enxergava apenas luta
eu hoje vejo colaboração.

E eu, que em minha pequenez,
como objeto as tratava
pelos cantos,
pelas frestas,
vejo enfim pela primeira vez
a verdade clara:
vejo as plantas como mestras.

 

O quintal da casa do meu vô materno era pequeno, mas parecia uma florestinha. Minha mãe sempre “falou” com as plantas. Cresci entre um abacateiro, uma jaboticabeira e um flamboyant em Brasília. No entanto, apesar de meu imenso amor pelos animais, vinha virando as costas para o mundo botânico, tratando as plantas como objetos. Tudo bem, entendia, pelas aulas de biologia, que os vegetais eram seres vivos. Mas entender está bem longe de sentir.

Por influência de minha mulher Michelle, que sempre pára para apreciar árvores bonitas em nossas andanças; e por amigos como o Fabio Pinczowski, o menino do dedo verde; o Edu Filomeno, que há tempos abandonou o concreto em prol de uma vida mais cercada de natureza; e o Fede Montero, que mantém um diálogo sempre aberto com a vida vegetal; de uns tempos pra cá eu vinha filosofando sobre o tempo das árvores (será que nos vêem como formiguinhas apressadas?), sobre como se comunicam, sobre suas alegrias e sofrimentos.

Finalmente, tudo isso culminou numa ida à Fazenda Lila, um lugar por si só mágico, onde fizemos um curso de agrofloresta com o Alan Berenstein. Além de botar a mão na terra e aprender essas técnicas revolucionárias (e ancestrais) de cultivo, os conceitos básicos que permeiam a agrofloresta e a biodinâmica abriram um milhão de portas no meu intelecto, e derrubaram mais outro milhão de muros no meu coraçãozinho urbano.

Nesta letra está quase tudo que consegui absorver até agora: o crescimento espiral das plantas, as raízes buscando nutrição e melhorando o solo, a substituição da noção de luta por uma de colaboração entre plantas e animais, o amor incondicional.

Para completar, Michelle me presenteou com A Vida Secreta das Plantas, livro de 1973 de Peter Tompkins e Christopher Bird, que gerou o documentário homônimo de 1979, com a famosa trilha sonora do Stevie Wonder (o lindo STEVIE WONDER’S JOURNEY THROUGH THE SECRET LIFE OF PLANTS).

Minha mente e coração seguem se abrindo para a verdade: o planeta é das plantas, nós habitamos aqui porque elas em sua generosidade nos permitiram. Aprendamos com elas.

FICHA TÉCNICA:

Gravado e produzido por Mauro Motoki na Colméia.
Piano e voz por Mauro Motoki.
Ukulele e voz por Michelle Ballon.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco Master.
Retrato fotográfico por Michelle Ballon.
Montagem gráfica por Mauro Motoki.
Tipografia e identidade visual por Edu Filomeno.

*Para uma breve introdução à agrofloresta, e um de seus mais notórios praticantes, Ernst Gotsch:

08 / SECRETO

 

 

SECRETO

Eu prometo não contar
se você tampouco for espalhar
Vamos guardar entre você e eu

E a quem poderia interessar?
Todo mundo tem mais o que fazer
do que querer saber de você e eu

Eu não sei se vou me controlar
Se você aparecer
Não vai dar pra esconder
Será que vão perceber?

É só curtir sem compartilhar
não precisa promover nem publicar
Basta viver
Você e eu

Eu não sei se vou me controlar
Se você aparecer
Não vai dar pra esconder
Será que vão perceber?

Eu não vou
não sei se vou me conter
Se você aparecer
Não vai dar pra esconder
Será que vão perceber?

Quase todas as canções atuais me parecem muito limpas, editadas, afinadas. Muitas passam a impressão de bem tocadas, mesmo quando posso apostar que não foi o caso da performance original no estúdio. Isso é fruto da tecnologia de gravação e edição de áudio, somado ao gosto estético atual mesmo.

Por outro lado, tantas bandas que admiro privilegiam muito mais a emoção e a expressão do que esse suposto refinamento! Especialmente quem passou a adolescência nos anos 90 viu suas emoções se confundirem com guitarras sujas, que mesmo quando bem tocadas, passavam aquela impressão de “não estou nem aí”. Teenage Fanclub, Jesus and Mary Chain, Pixies, Nirvana… poderia listar quase tudo que ia nos nossos K7s e CD-Rs.

Com isso no coração, acho que está vindo uma leva de canções menos “arranjadas”, mais despretensiosas do que as que lancei este ano até agora.

Nesta “Secreto”, quis fazer uma música bem pop para oferecer à minha amiga Roberta Campos, com traços do que admiro em suas canções. Tomei gosto por ela e resolvi gravar esta versão que apresento este mês.

Na letra desta música, falo daquele sentimento viciante como uma droga, de viver uma paixão e ter que guardar segredo, seja por circunstâncias externas, seja porque ainda não é algo que todos devam saber. Fiquei feliz por ter conseguido desenvolver um tema que não reflete meu momento atual, e ter podido passar a emoção sem que ela esteja necessariamente presente no meu dia-a-dia.

FICHA TÉCNICA:

Produzido e gravado por Mauro Motoki no Estúdio Doze Dólares em setembro de 2017.
Todos os instrumentos, samples e programação por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Retrato fotográfico por Michelle Ballon.
Tipografia e conceito gráfico por Edu Filomeno.

07 / CONTRAPLANO

Passa o tempo e você me pede pra lembrar
De uma cena, um lugar onde te vi feliz
Qual momento será que eu pude aparecer?
Eu que sem perceber, tantos papéis já fiz

Improviso um quase riso
Um nervosismo a mais
Um passo para trás
Tantos anos em contraplano pra você brilhar
Sombra e reação
A atuação é sua

Desce o pano e a memória vem me visitar
Nos bastidores está a cicatriz
O meu lado da história ninguém precisa ler
Quando for pra valer, é você quem diz

Improviso um quase riso
Um nervosismo a mais
Um passo para trás
Tantos anos em contraplano pra você brilhar
Sombra e reação
A atuação é sua

Não sei sorrir como você quer
Não sei chorar quando bem entender
Por mais bonito que seja o clichê

CONTRAPLANO

Partes desta música já devem ter sido usadas experimentalmente no Ludov em alguma ocasião. Lembro de usar um trecho desta melodia no processo de composição da canção Rubi, do Disco Paralelo, em 2006. Mas depois descartei o trecho e a letra na época.

A letra atual começou como um questionamento e uma auto-provocação, para incentivar um protagonismo maior em minha carreira artística, para que tomasse as rédeas daquilo que sentisse que só eu mesmo poderia dizer. Como se fosse a justificativa para mim mesmo do porquê de gravar com minha voz estas canções que lanço este ano, em vez de colocá-las à disposição de outros intérpretes.

Então explorei essa imagem do ator coadjuvante, que num palco trabalha para realçar o papel do protagonista. Mas que nem sempre sabe reagir conforme o esperado.

Desde então, tenho enxergado mais nuances na interpretação desta canção. Essa mesma dinâmica do protagonismo/apoio serve para diversas facetas de nossa vida cotidiana. Pode ser que em casa, tenhamos que equilibrar o que consideramos nossas prioridades individuais com aquelas que são demandas dos outros membros da família. Quando é o momento de assumir o controle de sua própria história, e quando é o momento de ajudar os outros a completarem seus roteiros? Na vida profissional, é comum que tenhamos que doar nosso tempo e nossos melhores esforços para que o projeto de um sócio ou colega tenha êxito, e isso nem sempre estará alinhado com nossas próprias metas ou expectativas.

Para a gravação desta canção, quis chamar amigos para uma jam livre, e reuni o Habacuque Lima do Ludov e os argentinos Fede Montero e Cinthia Mendes no estúdio Trampolim em SP, onde nos revezamos entre um piano elétrico Rhodes, uma guitarra, baixo e percussões. Cada tomada alguém assumia um instrumento diferente. Resolvi abordar este arranjo desta maneira porque não sentia que pudesse iniciá-lo de algum ponto racional, como é comum quando se começa a pensar uma música sozinho. Com este método mais livre, buscava o intuitivo, o que fosse fluido para a composição. Foi ótimo e divertido.

Mas num segundo momento, semanas depois, achei que embora tivesse conseguido essa atmosfera de espontaneidade, faltava personalidade neste arranjo, talvez uma paleta de cores mais contrastantes. Convoquei o Luciano Tucunduva e juntos pensamos em fazer algo na linha do disco Yankee Hotel Foxtrot do Wilco. Usar os elementos que a gente já tinha de uma maneira menos usual, fazendo-os entrar e sair no meio da música, dando uma impressão bem caótica. Luciano acrescentou uma bateria bem desestruturada, quase sinfônica.

E a partir daí abri mão de qualquer controle, e esperei que o próprio Luciano mixasse a música como bem entendesse. Foi necessário desprendimento e confiança, e acho que a música ganhou dimensões inesperadas desta forma.

Para a arte gráfica, quis brincar com a ideia de que um protagonista relutante não olharia para a câmera, e sim quase que daria as costas a ela (o tal contraplano), convidando o observador a ver o que ele estava vendo, a reagir ao que ele estava reagindo. Não é uma ideia original, e um exemplo notório deste recurso é a capa do Cinema Transcendental do Caetano. Também retomei um hábito que adoro desde pequeno, que é o desenho de observação. Adoro desenhar os cantinhos das cidades, prédios, avenidas, estabelecimentos. Mais recentemente vi no Instagram uma comunidade de desenhistas que chamam isso de Urban Sketching. Achei que combinava com essa busca por compartilhar uma visão particular, única, de um cenário comum, coletivo. E assim também se estabelece uma ponte entre este apanhado de canções e meu primeiro disco solo, Bom Retiro (2011), cuja capa está repleta de desenhos desse tipo.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Gravado por Luciano Tucunduva no Estúdio Trampolim e Estúdio Doze Dólares.
Baixo, piano elétrico, guitarra e percussão por Mauro Motoki, Habacuque Lima, Fede Montero e Cinthia Mendes.
Teclados adicionais por Mauro Motoki.
Bateria por Luciano Tucunduva.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Fotos por Michelle Ballon.
Desenhos por Mauro Motoki.
Arte gráfica por Edu Filomeno.

06 / CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ

Você
Que me mostra o rascunho
Do canto pelo medo do amanhã
E depois não crê
Você
Que duvida do que não vê
Não vê que a gente logo esquece

Eu vim do amanhã pra dizer
Que sim o amanhã pode acontecer
Confie no que não se prediz
Que linda manhã pra desadormecer

Só ter
Ao redor quem concorde
Com sua visão, seus ideais
Poderá não ser
Melhor
Que vencer a batalha
Muito antes que ela comece

Eu vim do amanhã pra dizer
Que sim o amanhã pode mesmo acontecer
Confie no que não se prediz
Que linda manhã pra desadormecer feliz

E agora  o que eu não soube eu sonhei
Eu sonhei
E o que contendi contra ganhei
Por idear, ideei

CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ

Não sei o quão ordinária é a sensação de que um texto, uma letra ou uma melodia tenha vindo de um lugar exterior ao seu autor – mas em conversas com amigos compositores, parece relativamente frequente. Tem uma música em meu disco BOM RETIRO (2011) chamada Um Ponto Singular que me assombra por este motivo. Ao ouvir o disco pronto, me lembrava vagamente de algumas passagens da gravação, do arranjo, mas absolutamente nada do momento da composição, tanto da letra quanto da melodia.

Seja qual for a explicação (psicanalítica, psicocognitiva, espiritual ou sobrenatural), o fato é que o processo de escrever e compor muitas vezes acessa áreas pouco conscientes de quem o faz. Há um caráter terapêutico e uma lição de humildade e desapego nisso.

Este CANTO PELO MEDO DO AMANHÃ é uma representante dessa impressão de ausência de propriedade na autoria. Certo, lembro um pouco da sacada do meu quarto de hotel de Buenos Aires, lembro de assoviar a melodia pelas ruas daquela cidade, mas não me identifico como o dono desta letra e melodia, senão como seu mero redator ou viabilizador. Não por acaso, a letra trata de uma espécie de EU do futuro que vem garantir ao aflito EU do presente que o amanhã “pode mesmo acontecer”. Divirto-me com a ideia que esta letra pode ser verdade, e que quem a escreveu (escreverá?) sou eu mesmo lá na frente. Mas prefiro a interpretação do desapego autoral.

O que me lembro claramente, que seguramente resultou nas partes mais racionais do texto, é de minha iniciativa de lapidar a letra, já às vésperas de gravar a voz, substituindo palavras de uso comum por sinônimos pouco frequentes na linguagem coloquial. Fiz isso por diversão poética, e por querer expandir meu vocabulário. Talvez tenha sido influência de minha admiração pela língua espanhola que, na minha opinião, em seu uso coloquial, parece incentivar a exatidão na escolha das palavras em relação ao significado estreito delas. Há uma busca pela Verdade, com V maiúsculo, subentendida neste processo. Como dizem os budistas, “bem pensar, bem falar, bem agir”.

Então, para falar de acordar, usei “desadormecer”. Para brigar, “contender”. Para imaginar, “idear”.
Gostei do resultado, penso que deixa a imagem mais intrigante, embora não necessariamente mais exata.

A segunda parte da letra toca no assunto da tal bolha social de que tanto se falou nas mídias sociais, problema recorrente precisamente nelas. Rodear-se de quem só concorda e valida todo tipo de opinião que você emita, bloqueando quem discorda, é perigoso. É vencer (ilusoriamente) a “batalha” antes de permitir que ela sequer comece.

Sobre a parte da instrumentação, assim como em A Permanência da Mudança e Bom Gosto, gravei uma corda de cada vez da guitarra da intro e do final, e também dos acordes de baixo (!) dos refrães. Isso de gravar cada uma das 4 ou 6 cordas separadamente é exaustivo, mas acho que gera uma estranheza muito interessante no timbre de cada instrumento. Também, a exemplo de outras faixas lançadas este ano, toquei a bateria sem pratos, golpeando o bumbo com a mão direita e os outros tambores com a esquerda, em vez de usar o pé, como é mais comum. Isso deixa a parte rítmica forçosamente mais básica, mais enxuta.

A alusão a um EU do futuro obviamente não é nova. Filmes como De Volta Para o Futuro, 12 Macacos e Donnie Darko já exploraram repetidamente o tema. Desde H. G. Wells a viagem no tempo nos fascina. Desde Homero, Shakespeare e Dickens a visita de um ente fantasmagórico que vem nos alertar ou tranquilizar é relativamente comum. Talvez uma cena em especial tenha influenciado a composição desta letra. Trata-se deste trecho de La Danza de la Realidad do franco-chileno Alejandro Jodorowsky, que o amigo Edu Filomeno me mostrou um tempo atrás.

Outro paralelo que consigo traçar é com o conteúdo do livro El Arte de Ensoñar do americano Carlos Castañeda. E aqui a surpresa: estou lendo-o agora, nem sequer o terminei ainda, mais de um ano e meio depois do momento da composição, por tê-lo recebido de presente de outro bom amigo, Fede Montero. Ou seja, estarei me tornando o EU do futuro, que influenciado por este livro, visitará o EU de dezembro de 2015 com esta canção?

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Felipe Machado.

05 / PERGUNTE AO PÓ

Da escuridão
Dai-me luz
De mim levai tudo
Não sou capaz sozinho

Sempre soube desde muito cedo
Viver é um caminho lento e só
Por isso é ainda mais difícil
Dói ver a nossa vida virar pó
Dói ver os anos se transformarem nisso
E agora meu caminho deu um nó

Da escuridão
Dai-me luz
Enfim já sou grato
Não fui jamais sozinho

Sempre soube desde muito cedo
Viver é um caminho lindo
e só quem nega o que intui torna difícil
Erguer aquele véu de frente ao pó
Somente os anos pra ensinarem isso
Crescer depois de desfazer o nó

PERGUNTE AO PÓ

Trabalhando com música todos os dias nos últimos 10 anos, é fácil se perder de vez em quando na rotina, nos projetos, nos prazos do estúdio. O ofício de gravar, as técnicas, as soluções e os arranjos, tudo isso é encantador. Produzir as canções que saíram de outro artista, vislumbrar aquela alma e atender aquele cliente, tudo junto, é empolgante.

Mas como eu disse, é fácil se perder, e perder de vista o que considero os 2 aspectos mais importantes de ser artista. Primeiro, manter acesa a chama inquieta da busca artística íntima, a força do que você quer expressar para o mundo com sua voz única, com entrega e verdade. Segundo, e talvez ainda mais importante, manter-se ciente de que a música é uma ferramenta espiritual, cura, terapia e caminho para nossas almas. Neste último quesito, tenho a sorte de ter amigos profundamente envolvidos com suas missões, e dentre eles destaco o Gustavo Garde e o Daniel Padilha.

Dito isso, senti a necessidade de resgatar esta PERGUNTE AO PÓ, canção composta em 2008, e complementá-la com a segunda parte da letra, composta nove anos depois. Isto foi importante para mim porque esta canção é uma oração. E ver o que meu espírito dizia há nove anos me motivou a avaliar por onde estive nesta quase década. Aquela oração era de anseio, esta é de gratidão.

Quando praticava kung fu, meu querido mestre Amaral sempre nos ensinava sobre o bambu. Como esta planta resistente porém flexível nos dava o exemplo perfeito de conduta. Em especial sobre seu desenvolvimento, o mestre nos apontava que para crescer o bambu formava nós rígidos, em intervalos regulares. Os nós representam nossos momentos de crise, de inquietação, mas também de preparo e crescimento. Só passando por eles seremos capazes da espichada seguinte rumo à luz.

Finalmente, o título da música não tem um significado muito racional em sua ligação com o livro homônimo de John Fante, além de falar do pó que surge na letra, e talvez tocar em temas parecidos com a primeira parte. Mas lembro que o livro me marcou muito na mesma época em que a letra original foi escrita. Talvez eu devesse relê-lo agora, nove anos depois.

Mantive o mesmo arranjo da versão original de 2008, regravando vozes, violões e sintetizadores, mas mantendo minhas guitarras originais (tem uma com o pedal ooh-wah que adoro), e o solo final do meu admirável amigo guitarrista Fernando Coelho, um verdadeiro presente.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no sítio em 2008 e no Estúdio Doze Dólares em 2016 por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki, exceto guitarra solo por Fernando Coelho.
Mixado por Mauro Motoki. Remixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.

04 / BOM GOSTO

Quando alguém me diz que tem bom gosto, eu viro o rosto.
Penso logo que é doença, acudo, ajudo a se livrar.
Essa superioridade consentida é um conforto temporário.
Na verdade traz a mediocridade escondida.

E quem no mundo sabe o que é moderno?
Segundo caderno tem na capa a cara a tapa de quem só sabe imitar. Essa originalidade que é vendida com imposto alfandegário, com amizade e hereditariedade de mentira.

E quem disse que é pra entender pra se gostar?
Quem precisa aprender a enxergar?

BOM GOSTO

Esta música nasceu de uma brincadeira com a guitarra semi-acústica emprestada com que eu compunha no final de 2015. O som dela favorecia uma levada meio picaresca, meio cigana. Aquele som que a gente associa com vaudeville, com feiras e circos itinerantes do começo do séc. XX. Anões, mulher barbada, atrações bizarras.

Ao começar a pensar na letra, me pareceu que eu poderia falar de como me sinto em relação ao circo midiático atual.

Embora eu mesmo – como entusiasta e interessado pela história da música popular – possa ser acusado de um certo esnobismo quando falo do meu gosto pessoal por artistas e canções, estou no meu íntimo muito distante de quem usa conhecimento histórico ou contextual como arma para separar joio do trigo, para enfatizar uma superioridade automática de um artista cult ou consagrado em relação a outro popular.

Invariavelmente, em encontros de família ou amigos que não trabalham no meio musical, muitos vem me falar de como abominam o funk, o pagode ou o sertanejo, num esforço até louvável de confortar a mim, “músico de bom gosto”, já que o sucesso deles seria algo a se lamentar, fruto da ignorância brasileira. Onde está a boa música, que não tem espaço?

Olha, não sou mal educado. Sempre agradeço o impulso e a simpatia. Reconheço o gesto de apoio. Porém jamais pensei ou penso que o sucesso de alguém seja algo totalmente desmerecido. Não almejo de maneira nenhuma o espaço midiático dos colegas de outros estilos, seja rock, pop, mpb, sertanejo, pagode, funk, ou qualquer outro. E NUNCA me considerei melhor que qualquer um destes outros músicos como profissional. Em matéria de gosto pessoal, é claro que amo alguns artistas e tenho predileção por alguns estilos. Assim como detesto outros e não tenho grande interesse por outros tantos. Amo rock? Detesto sertanejo? Poderia cair no erro de dizer isso. Mas tem tanta, mas tanta banda de rock horrível, e tem um bom punhado de canções sertanejas tão boas!

Isto de bom ou mau gosto tem em todos os estilos.

Tive a sorte de conversar ontem com o grande Wilson Das Neves, e ele me ensinou muito ao dizer: “Tenho tudo o que quero, porque nunca quis nada.” Ouvir essa frase Zen de um cara que tocou com Pixinguinha, Cartola, Tom Jobim, Elis e Chico entre muitos e muitos outros foi elucidativo. Minha ambição não está onde os outros trilharam. Nunca esteve, embora às vezes a gente mesmo tenha essa impressão.

Finalmente, sempre me incomodou a “bola da vez”, este sistema de eleger de tempos em tempos quem é que está na crista da onda. Desde os cadernos de cultura dos jornais, até blogs de música e algoritmos de serviços de streaming, o consumo de cultura exige que se dite quem é que você deve comprar e admirar para que você mesmo seja considerado cool, pessoa de bom gosto, jovem e antenada.

Depois de tantos anos produzindo música do meu jeito aqui no meu canto, quantas vezes não me deparo com um hype gerado por amizade de artistas com jornalistas e produtores? Somos todos humanos. Se além de achar a obra de um artista boa, ainda me sinto querido e valorizado pela atenção que ele me dá, por que não escrever bem sobre ele? Por que não privilegiá-lo na escalação de um festival? É claro que ser artista sempre foi saber se relacionar por aí, em cortes das realezas, em vernissages, em festas, em premiações, no Facebook. Ser humano é saber ser influente em sua comunidade. No meio artístico isso é especialmente necessário. Até aí nada novo.

Junte-se a isso a necessidade mercadológica de fazer girar a roda do consumo, substituindo as novidades cada vez mais rapidamente, e caímos na armadilha disso que me incomoda. A pressão pra estarmos todos antenados o tempo todo. Ouvi um programa de rádio com o Bob Dylan apresentando e escolhendo as canções de acordo com temas, o Theme Time Radio Hour. Excelente. Em um dos episódios, ele lê a carta de um ouvinte reclamando que ele tocava muito mais velharias que novidades. Dylan responde: “existe muito mais música antiga do que nova. Sempre vai ser assim. Por uma questão estatística somente, estou fadado a escolher mais antiguidades que novidades.” Acrescento aqui apenas o lembrete que não é porque é velho que é bom (nem porque é novo que é bom), e estamos conversados.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos, samples e voz por Mauro Motoki.
Vozes adicionais por Fede Montero e Cinthia Mendes.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.

03 / CABE

Cabe en tus manos todo lo que tengo
como un destino en la borra de un café.
El universo en un párrafo inquieto
del gran Jorge Luis…

Cabe en tus ojos toda mi esperanza,
cabe en tu vientre la creación,
como en la célula cabe la historia
de la humanidad.

Cabe mi ser entero
dentro de esta canción.
Tómala sin reparos,
déjame estar por un rato en tu voz.

Todo el misterio en una sola palabra
y la existencia también.
Todo resume en este breve instante, ahora y aquí.

Cabe mi ser entero
dentro de esta canción.
Tómala sin reparos,
déjame estar por un rato en tu voz.

Abre el recuerdo que hay en tu cuerpo.
No habrá más que una sonrisa tímida.
La totalidad en cada fragmento,
En un momento de tu memoria mi vida.

Cabe en tus manos todo lo que tengo
como un destino en la borra de un café.
El universo es un presente inquieto
ahora y aquí.

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Cabe em tuas mãos tudo que eu tenho, como um destino na borra de um café. O universo em um parágrafo inquieto do grande Jorge Luis…

Cabe em teus olhos toda minha esperança. Cabe em teu ventre a criação, como na célula cabe a história da humanidade.

Cabe meu ser inteiro dentro desta canção. Pegue-a sem desconfiança, deixe-me estar por um momento em tua voz.

Todo o mistério em uma só palavra, e a existência também. Tudo se resume a este breve instante, agora e aqui.

Cabe meu ser inteiro dentro desta canção. Pegue-a sem desconfiança, deixe-me estar por um momento em tua voz.

Abra a recordação que existe em teu corpo. Não haverá mais que um sorriso tímido. A totalidade em cada fragmento, num momento da tua memória minha vida.

Cabe em tuas mãos tudo que eu tenho, como um destino na borra do café. O universo é um presente inquieto, agora e aqui.

 

Acabo de voltar de mais uma temporada de trabalho em Buenos Aires, onde compus a maioria das canções que passo a lançar mensalmente. A cada vez, minha amizade com o grande músico e produtor argentino Fede Montero fica mais clara e mais profunda. Desta vez, nada mais verdadeiro que mostrar a vocês a primeira composição em parceria com ele, feita há mais ou menos um ano atrás.

Estava de uns anos pra cá cada vez mais maravilhado com a maneira de se escrever canções na primeira metade do séc. XX. Cole Porter, Gershwin, Pixinguinha, Noel Rosa, Rodgers e Hammerstein. Os standards de jazz e as melodias brasileiras antes do Rock, antes da Bossa-Nova, antes de todo mundo saber de tudo. Há uma inteligência que passa sem esforço, nos dois sentidos, de quem fez a letra para quem a escuta. Há a evocação da beleza em cada frase melódica. Nenhum ouvinte é menos merecedor por acumular mais ou menos informação. Nada depende de referências prévias.

Brincando com alguns acordes menos complicados de jazz, cheguei numa melodia que achei bonita, que parecia evocar as saudades dessa era, mesmo com minhas limitações (no mínimo a limitação mais óbvia de viver 100 anos depois de tal período). Mostrei ao Fede, que se inspirou a escrever uma letra, onde procurou condensar nossos muitos papos em cafés nas calçadas de Belgrano.

Borges, genética, espiritualidade, nostalgia, devoção e paternidade. O talento de Montero é tamanho que nos versos estão todos esses assuntos, em palavras diretas, sem rebuscamentos desnecessários nem pretensões irreais. É uma letra claramente feita com honestidade e alma.

Ao receber a letra, talvez pela força gravitacional do idioma espanhol, passei a enxergar um bolero antigo no rádio de alguma sala de estar portenha, a família reunida em volta do aparelho… Na hora de gravar, assumi esse clima, e procurei me inspirar por alguns arranjos do maravilhoso Fina Estampa do Caetano, disco de 1994. Um violão de nailon e minha voz conduzem a apresentação da canção, que aos poucos é adornada com beats, sintetizadores, guitarras e batuques.

Fede Montero foi um cantor-mirim prodígio conhecido em seu país, e só mais tarde passou a desenvolver muito talento com instrumentos, produção e composição. Por isso, ao pensarmos juntos sua participação, escolhemos fazer com que sua voz entrasse do meio em diante, evocando a nostalgia de uma melodia de outro tempo. Eu, que estou agora em uma busca pela minha voz cantada, sempre me admiro ao ver um grande cantor desempenhar frente a um microfone. Ver Fede gravar foi uma verdadeira aula.

Finalmente, para a mixagem, achei pertinente que fosse feita na Argentina. E achei que alguém que tivesse o idioma espanhol como língua nativa entenderia melhor a emoção que quisemos passar. Então outro bom amigo, Mauro Cambarieri, se encarregou de mesclar os sons, com muita sensibilidade e clareza.

FICHA TÉCNICA:

Composta e produzida por Mauro Motoki e Fede Montero.
Gravado no Estúdio Doze Dólares (São Paulo) e Nagualito Estudios (Buenos Aires).
Engenharia de som por Luciano Tucunduva e Fede Montero.
Violão, guitarra, teclados e voz por Mauro Motoki.
Programação, percussão, teclado e voz por Fede Montero.
Mixado por Mauro Cambarieri no Estudio Del Campo (Buenos Aires).
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.

 

Em memória de Leia (25/04/2003), companheira impecável por 14 anos.

02 / DOIS EXTREMOS


Falando de amor, de ódio e amor, e tudo entre os dois extremos, fizemos um plano pra nós dois. Pra agora, ou pra depois, não lembro.

Tudo em SP exige que se explique e se desculpe, que se venda, se vende ou se vista. Eu não consigo mais, me desculpe. Esse jeito só me afasta mais.

Sonho com um canto onde a gente possa ter um repouso, um tanto de promessa ao amanhecer. Uma sensação de que a vida não é uma luta, um dever. Onde a rua não seja só a mão pra quem corre ou quer correr. Quero abrir um livro na calçada e ler.

E quando no computador, no telefone e no computador, está tudo entre dois extremos, me sinto totalmente só. Todo mundo tem opinião, só eu não tenho!

Toda essa gente pensando que é esperta, que é da turma, é amiga e estará na lista… Eu não consigo mais, me desculpe. Essa vida não me atrai.

Sonho com um canto onde a gente possa ter um repouso, um tanto de promessa ao amanhecer. Uma sensação de que a vida não é uma luta, um dever. Onde a rua não seja só a mão pra quem corre ou quer correr. Quero abrir um livro na calçada e ler.

DIVIDE ET IMPERA

Julio César, Felipe II da Macedônia e Napoleão. Maquiavel, Francis Bacon e Emanuel Kant. Todos eles usaram ou apontaram a máxima do DIVIDIR PARA CONQUISTAR no campo político. Será que não somos capazes de perceber que estamos jogando este mesmo joguinho milenar aqui, nas mídias sociais, deixando este comportamento sangrar para as conversas de amigos e os jantares de família?

Esquerda. Direita. Petralha. Coxinha. Comunista. Reaça.

Eu acredito que somos muito mais capazes que isso. Eu acredito que as diferenças poderiam nos unir, e não nos separar.

Acho necessário e saudável que fiquemos indignados com os abusos e a falta de ética da nossa política. Aquela dos noticiários e principalmente aquelas quase invisíveis do dia a dia na esquina de casa.

Mas sou contra a arrogância. A prepotência. O julgamento fácil. Os argumentos viciados. A repetição burra dos argumentos viciados que você ouviu e nem interpretou.

Sou a favor de enxergar em si mesmo os mesmos defeitos e limitações que o outro tem. Sou a favor do aprendizado. Sou a favor do diálogo (e isso que tantos tem feito no Facebook não chamaria de diálogo, não).

Certo dia, de frente ao piano elétrico no Estúdio 12 Dólares, o desânimo me subjugou. A opressão dos Dois Extremos, a divisão entre as pessoas, tudo isso me deu um “blues”. E confesso que fiz esta música meio na base do “por que não fazer?”.

Gravei o piano e uma voz guia, depois a bateria. Acrescentei uma guitarra e se não me engano um órgão.

Querendo evitar ao máximo destacar o chororô desta letra, pedi socorro ao Fede Montero na hora de cantá-la. Essa música é mais desabafo que lamento. Fiquei feliz com o resultado. Fede me ajudou a encontrar na minha voz expressões que não sabia possuir. Ao contrário da monotonia da voz provisória que havia gravado sozinho, neste take final encontrei significado, verdade e colorido.

Vivo em São Paulo há mais tempo do que em Brasília, minha cidade natal. Amo esta cidade que me acolheu tão profundamente, embora desta maneira estranha, ilusoriamente fria. Como disse certa vez o amigo americano Victor Rice, em São Paulo todo mundo pode ser paulistano. E por amá-la, fico indignado quando encontro a desumanidade em suas ruas. Voltando de Buenos Aires, desejei para SP um pouco do romantismo bruto de sua hermana.

Abrir um livro na calçada e ler.

 

FICHA TÉCNICA:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por @Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.

01 / A PERMANÊNCIA DA MUDANÇA

Talvez ser poderoso seja ser frágil
e permanecer seja mudar
ao sabor de cada presságio
a cada presente
que vivendo a vida a gente vê que a vida dá

Talvez não reagir peça coragem
Aceitar também é responder
Abraçar o que se sente
cada bobagem
que vivendo a vida a gente vê que é viver

10 de janeiro de 2016. Acordei cedo para mais um dia de gravações no estúdio. Ainda tomando café em casa com minha mulher, li no celular a notícia de que David Bowie havia morrido. Não pode ser, pensei. Seu disco novo acabara de ser lançado, incitando nos últimos dias esperanças de mais uma turnê. Como era bom ter um artista de sua estatura ainda produzindo e lançando coisas novas! Ao longo das próximas semanas, o mundo inteiro teria que aceitar sua partida, e se maravilhar com seu legado e com o comprometimento espantoso que demonstrou até o fim, transformando sua própria morte em um último disco pungente e complexo, pondo sua obra acima até mesmo de sua própria existência pessoal.

Mas ali, naquela manhã, não sabia de nada disso, e me senti órfão e vazio. Pensei em abandonar as gravações daquela semana. Nada que eu pudesse produzir em termos de música me parecia relevante naquela circunstância. Uma tristeza ampla se estendeu como um lençol por cima de qualquer possibilidade para aquele dia. Tentei ouvir alguma música, dele ou de outros, mas o silêncio parecia sempre o mais adequado. Segui para o estúdio, um pouco como hábito, um pouco por achar que a caminhada em si me ajudaria a absorver melhor a notícia.

Entrando no estúdio, uma atmosfera serena me surpreendeu. A luz entrava pelas frestas lateralmente, aquecendo aos poucos os cantinhos ainda habitados pela madrugada. Liguei os equipamentos um pouco mais motivado a seguir com minha rotina de produção, continuando a gravar as canções que tinha até então, mas estanquei.

Sentei no sofá com um violão e esta canção veio inteira, do primeiro ao último acorde, com melodia e até um bom pedaço da letra, que eu terminaria até o fim daquele dia. Finalmente levantei a cabeça, e ali estava David Bowie me encarando com os olhos sobrenaturais do poster do disco Heathen que temos pendurado na parede do Estúdio 12 Dólares. Tinha esquecido que ele estava ali, e aquilo levantou o véu de lamentação sob que eu me encontrava. Nem uma doença terminal fez aquele grande ídolo conter o impulso criativo que está em todos nós. Por que diabos sua morte deveria fazer qualquer coisa diferente do que nos inspirar a sermos artistas e pessoas melhores? Obrigado, David Robert Jones. Naquele momento, fiz minha oração à pessoa que tinha partido, e ao artista que permaneceria.

Vinha me divertindo com a ideia de gravar guitarra ou violão de uma maneira diferente: uma corda por vez, mesmo se estivesse tocando acordes com as seis cordas simultaneamente. Nesta música, pus isso em prática. Mentalmente desgastante e recompensador ao mesmo tempo. O resultado foi um som de violão denso, e um pouco alienígena (piscadela, Ziggy!). Usei e abusei do sintetizador construído especialmente para mim pelo amigo Arthur Joly. Finalmente, na hora de gravar bateria, resolvi tocar o bumbo também com as mãos, já que decidi que não usaria pratos para conduzir a levada.

Todas as vozes definitivas gravei meses mais tarde, com a chegada do Fede Montero de Buenos Aires. Músico, produtor e cantor prolífico, ele como coach vocal me ajudou imensamente a encontrar uma nova voz. Não sou cantor experiente, tendo me aventurado algumas vezes à frente no Ludov e no meu disco anterior, Bom Retiro. Queria encontrar minha voz cantada, queria que ela se aproximasse mais da minha voz falada, e queria também ter um pouco mais de recursos técnicos para cantar a emoção que achasse que a música pedia. Ainda não peguei aquela “veia”, sinto que ainda há muito a desenvolver, mas nessas músicas, a começar por esta, já noto uma evolução.

 

Ficha técnica:

Produzido por Mauro Motoki.
Gravado no Estúdio Doze Dólares por Mauro Motoki e Luciano Tucunduva, e no Trampolim Estúdio por Habacuque Lima.
Coaching Vocal por Fede Montero.
Todos os instrumentos por Mauro Motoki.
Mixado por Luciano Tucunduva.
Masterizado por Arthur Joly na Reco-Master.
Design gráfico e identidade visual por Edu Filomeno.
Fotografia por Michelle Ballon.